quarta-feira, 3 de maio de 2017



A TEOLOGIA INDÍGENA                      
Benivaldo Nunes Lima[1]

A CHEGADA DOS ÍNDIOS NAS AMÉRICAS

Existe uma discussão, sobre a chegada dos índios nas Américas, para os antropólogos americanos, os primeiros assentamentos na América são o povo Clóvis, todavia, esta “teoria” Clóvis é questionada da seguinte forma:
    
Monte Verde é um sítio arqueológico na área sul-central do Chile que, possivelmente, data de 12.500 anos. Monte Verde é anterior à chamada Cultura Clóvis, em Clovis, no Novo México. Esse fato desafiou a geralmente aceita Teoria Clóvis, que afirma que povos não colonizaram a América antes de 11 500 anos atrás. Contudo, estas datas permanecem em disputa na comunidade científica. (Monte Verde (Chile), 2017).


Outra informação importante, que contraria a “Teoria” Clóvis é fornecida pelo livro, Grande História Universal. “Trata- de aglomerados na povoação do Monte Verde ( no Chile Meridional), que remonta a cerca de 13 000 ,encontraram-se , em bom estado de conservação restos de caçadores” ( 2006, p.72). Como foi visto, existe uma disputa entre os antropólogos,  sobre a chegada dos primeiros habitantes nas Américas. Outra Teoria bastante questionada é o caminho que estes primeiros habitantes usaram, para migrarem para as terras americanas.
 A “teoria” que era mais aceita e difundida era de que os índios, os quais pelos estudos do mapeamento genético têm ascendência asiática (os asiáticos do oriente, japoneses, Mongóis, chineses), e os traços físicos e linguísticos corroboram para isto. Segundo a antiga “teoria”,  os índios tinham chegado à América pelo Estreito Bering, em volta de 12 000 AEC , Bering  seria uma ponte terrestre entre o Alaska e o extremo da Rússia ou Sibéria (Ásia). No entanto uma nova pesquisa,  desmontou esta teoria do Estreito de Bering:

Por muito tempo, a ciência considerou que a rota mais provável das populações que saíram da Sibéria e chegaram ao atual Alasca para se espalharem pelo continente americano, há pelo menos 13 mil anos, teria sido uma ponte terrestre que ligava a Ásia à América do Norte, onde hoje fica o Estreito de Bering. Com a última glaciação chegando ao fim, a retração de duas enormes geleiras que cobriam essa área teria formado um corredor - na região oeste do atual Canadá -, que teria permitido a passagem dos povos asiáticos, antes que a elevação do nível do mar deixasse o caminho submerso, formando o Mar de Bering. O novo estudo, no entanto, aponta que o corredor entre as geleiras, formado há 15 mil anos, não poderia ter sido atravessado antes de 12,6 mil anos atrás, já que não era colonizado por plantas e animais, impossibilitando a longa viagem migratória. A conclusão da pesquisa é que esse não foi o caminho dos primeiros povos que chegaram à América, já que existem vestígios que confirmam a presença humana no continente há pelo menos 13 mil anos. (Castro, 2016).


Portanto, ainda não se tem uma definição precisa, de que forma os primeiros habitantes da América chegaram ao continente americano.

A CHEGADA DOS EUROPEUS EM TERRAS INDÍGENAS

Com o mercantilismo (na cidade de Calicute na Índia, Vasco da Gama teve sucesso com o comércio marítimo nesta Cidade) de navegação, empreendido pelos portugueses e espanhóis no século XVI D.C, os portugueses chegaram ao Brasil, conforme José Dantas (1971, pg. 30), da seguinte maneira. “No caminho para oriente, na altura de Cabo Verde, a esquadra chefiada por Pedro Alves Cabral, desvia de sua rota normal, para o ocidente, e vem descobrir, politica e oficialmente as terras do Brasil, a 22 de Abril de 1500[2]”. De acordo com os livros históricos, os primeiros contatos entre os índios[3] e os colonizadores, se deram da seguinte forma:

Os indígenas tupis predominavam no litoral do atual Brasil nos 1500. Foram os primeiros a entrar em contato com os portugueses colonizadores. Eles estavam divididos em vários subgrupos, como tupiniquins, tamoios, temiminós, tupinambás, e muitos outros. Podemos chamá-los de tupis porque possuíam um modo de vida comum e falavam a mesma língua tupi ( Vainfas; Ferreira; Faria; Calainho, 2015, pg. 190).


 Os colonizadores espanhóis e portugueses, que extraiam as riquezas naturais[4] das novas “descobertas”, tinham uma visão preconceituosa sobre os índios. Os índios ( Chadwick; Evans, 2007, pg. 120), pertenciam uma raça bestial e subumana e que havia rejeitado o cristianismo, o que autorizava os espanhóis a submetê-los ao domínio cristão. Muitos índios morreram não por meio do uso da violência dos colonialistas, mas por causa das doenças que eles trouxeram para os índios, como a gripe, varíola, e outras doenças.  


AS MISSÕES CRISTÃS ENTRE OS ÍNDIOS NO BRASIL               


Quando os primeiros missionários jesuítas[5] (padre Manoel de Nóbrega) começaram suas missões entre os índios, eles tinham como missão, não apenas a salvação de suas almas,  almas estas, condenadas à danação do inferno, devido suas práticas pagãs[6]. Segundo, os sociólogos, e os antropólogos e outros das áreas humanas e sociais, esta missionização entre os indígenas no passado e ainda no presente, tem uma conotação etnocêntrica ocidental, sobretudo à europeia. Os jesuítas[7] , queriam exercer sobre os povos indígenas, uma espécie de inculturação, ou seja, cristianizar aqueles que não são cristãos. Todavia, queriam também realizar um processo de aculturação (adotar cultura de outra etnia) europeia, sobre o modus vivendi dos índios, principalmente no que tange à indumentária, relações poligâmicas, as práticas sexuais dos índios, antropofagia[8], e o infanticídio, Luiz Gonzaga, esclarece um pouco sobre isto:

No Brasil, por exemplo, grande parte dos estudos etnológicos foram dedicados aos estudos de aculturação e de contatos culturais. Isto, principalmente, em face de realidade verificada entre nossos índios. É notório que os índios em contato com branco veem sua cultura modificada e resultado muitas vezes, é a completa desorganização sócio-cultural, acarretando, em seguida, até o extermínio das culturas. ( Mello, 1987, pg. 91,92) .



A evangelização[9] entre os índios teria causado, e continua causando um etnocídio, ou seja, a destruição de uma etnia, pois todos os povos, e tribos tem sua cultura, a partir do momento que esta cultura é destruída, pela à imposição de outra cultura étnica (aculturação), este povo ou tribo deixa de existir. Alister McGrath destaca esta atitude do etnocentrismo protestante:

A interação dos missionários com uma cultura é tipicamente apresentada como unilateral: o missionário, por meio de ato de imperialismo intelectual e cultural, impõe sua percepção sobre a cultura nativa. Este estereótipo do missionário ainda perdura no mais  sombrios recessos da antropologia cultural , e alguns desse profissionais continuam retratar o missionário como firmemente etnocêntrico. ( Mc Grath, 2012, p. 195).
        

O trabalho de evangelização nas tribos indígenas, realizada por missões católicas, como a missão Cimi (Conselho indigenista missionário) ligada à igreja católica, e caso das evangélicas, como as Novas Tribos do Brasil, juntamente com a Jocum (Jovens com uma Missão), estas missões cristãs entram na disputa, em busca de salvar as almas “pagãs” dos índios. O impulso evangélico é movido por aquilo que está escrito em São Marcos 16, 9- 20[10].
A FUNAI (Fundação Nacional do Índio), já teria proibido estas missões entre as tribos indígenas, pelo fato delas, estarem destruindo as culturas indígenas, e por causa da violação destas agências missionárias, pois mesmas se acham violando a constituição brasileira da  seguinte maneira:

A questão do Estado laico no Brasil é urgente e merece extrema atenção. Proteger as sociedades indígenas do ataque religioso não se trata de ações de governo, mas de princípio da Constituição Federal, inscrito no artigo 4, inciso III, de garantir a "autodeterminação dos povos". E no artigo 5, inciso VI, a proteção aos "locais de culto", ou seja, os territórios indígenas: é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. (Milanez, 2013).                               


Isto significa que é proibido pela carta magna do nosso país, alguém ou um grupo religioso, penetrar nos lugares de culto de outras religiões, a fim de fazer proselitismo entre os membros de outras crenças. E para os cientistas da religião, nenhuma religião é melhor do que a outra, e todas têm suas formas de salvação, como pontua Geffré ( 2004, P, 74 apud AZEVEDO, 2014, p.14). “Todas as religiões são, à sua maneira, religiões de salvação, pelos menos no sentido de que elas buscam curar o ser humano de sua finitude e lhe promete uma imortalidade além da morte”. Portanto, não devemos achar que só a nossa religião é a única verdadeira, e todos devem aceitar ela, por bem ou por mal, para se salvarem do pecado original[11]·. Como disse Durkeim. “Não há, pois, no fundo religiões que sejam falsas”. “Todas são verdadeiras à sua maneira: todas respondem de maneiras diferentes, as condições da vida humana”. (Durkheim, 1989, p. 31).

CONCLUSÃO

Estas missões cristãs, que procuram levar salvação para as almas perdidas dos índios, gastam uma  quantidade enorme  de dinheiro,  para custearem estas obras missionárias.  
Pois estes gastos incluem, remunerações de linguistas, os quais realizam as traduções bíblicas, para as línguas nativas dos índios, e missionários, que terão suas despesas pagas, para serem enviados para tribos indígenas, e congressos, aonde são realizadas palestras, para falarem, dos resultados, e das novas estratégias, a fim de alcançar mais almas  escravizadas entre os índios.
É o capitalismo, mais uma vez sendo vinculado com a religião, mas desta vez, ele não é empregado para o enriquecimento de alguns líderes, mas por cristãos, que almejam conquistar todos,  para o único salvador deles, Jesus “Cristo”.      


REFERÊNCIAS

Alister, McGrath. Revolução protestante. Brasília: Palavra, 2012. 

Azevedo, Regis de Rogério. Pluralismo Religioso. Caminhos de Salvação. São Leopoldo: Oikos , 2014.  

Castro, F. d. (10 de Agosto de 2016). Estudo descarta chegada de humanos às Américas pelo Estreito de Bering . Acesso em 01 de Maio de 2017, disponível em Estadão : http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-descarta-chegada-de-humanos-as-americas-pelo-estreito-de-bering,10000068506

Chadwick, Henry; Evans, G.R. Igreja  Cristã . Barcelona: Folio,  2007. 

Companhia de Jesus. (11 de Abril de 2017.). Acesso em 01 de Maio de 2017, disponível em Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_de_Jesus

Durkheim, Émile. As formas elementares de vida religiosa: O sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Paulinas, 1989.

Dantas, José. Estudos de História do Brasil. São Paulo: Moderna, 1971.

Mello, Gonzaga de Luiz. Antropologia Cultural.  Petrópolis: Vozes, 1987.

Milanez, p. F. (13 de Agosto de 2013). Em defesa das almas indígenas. Acesso em 01 de Maio de 2017, disponível em CARTA: https://wwwcartacapital.com.br/blogs/blog-do-milanez/em-defesa-das-almas-indigenas-9424.html

 Monte Verde (Chile). (3 de Abril de 2017). Acesso em 01 de Maio de 2017, disponível em Wikipédia : https://pt.wikipedia.org/wiki/Monte_Verde_(Chile)

Pinto, T. (s.d.). Chegada de Cabral ao Brasil. Acesso em 01 de Maio de 2017, disponível em Escola
Kids : http://escolakids.uol.com.br/chegada-de-cabral-no-brasil.html

O PRINCÍPIO da Civilização. Barcelona: Folio,  2006.

Vainfas, Ronaldo. A Heresia dos índios. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Vainfas, Ronaldo; Ferreira, Jorge; Faria, Castro de Sheila ; Calainho,  Buono  Daniela. História. São Paulo: Saraiva,  2015.




[1] Benivaldo Nunes Lima é professor de Teologia no Instituto Capacita, e leciona também no ITEBE e na FE. Formado em Teologia pela Faculdade Evangélica de Brasília, Pós-Graduado pela Faculdade Evangélica de Brasília em Hermenêutica, e Mestrando na PUC de Goiânia, em Ciências da Religião, está também fazendo hebraico no Itebe.
[2] A viagem durou pouco mais de um mês. O primeiro sinal de terra firme visto pelos portugueses foi o Monte Pascoal, no litoral sul da Bahia. Recebeu este nome por ser época da Páscoa e os portugueses serem católicos (Pinto).
[3] Não foram os índios que convidaram os portugueses para explorarem suas terras, os colonizadores traziam em suas embarcações os religiosos, para abençoar as novas terras, como Portugal era uma “nação” católica na época da descoberta do Brasil, os religiosos eram os clérigos católicos. A primeira reza em terra brasileira foi em 23 de Abril de 1500, e o primeiro culto protestante foi em 10 de Março de 1557, que se deu com a chegada de calvinistas, enviados  pelo reformador de Genebra João Calvino (1509-1564) , a pedido do Almirante Nicolas Villegagnon,  líder da Colônia francesa na Baía da Guanabara ( Rio de Janeiro). As primeiras chegadas dos católicos e protestantes no Brasil é considerada por estudiosos  de  missões religiosas da invasão.   
[4] Pau Brasil, Cana de Açúcar, e Metais preciosos. Os índios foram usados como mão de obra pelos portugueses, para derrubar as árvores Pau Brasil, para que os colonizadores portugueses, pudessem transportar em suas embarcações,  e levá-las para Portugal. 
[5] Não insistirei no assunto, limitando-me a recordar a introjeção do cristianismo por meio de culpabilizações e estigmas das tradições indígenas, a imposição dos sacramentos (alguns, ao menos), a proibição de usos e costumes ancestrais, a disciplina de horários, ofícios divinos e serviços, a tentativa, enfim, de -vestir os índios — com algodão ou o que fosse —, pois nada repugnava mais a um jesuíta do que o corpo do "gentio": sua nudez, sem dúvida, mas também suas aparentes lubricidades e seu apego ao canibalismo — o pior dos males. Com fina sensibilidade, Baeta Neves afirmou que a missão tencionava, "efetivamente, corrigir o corpo do brasil", condição sine qua non para sua "salvação espiritual. (Vainfas, 1995, p.48)
[6] As base religiosas indígenas são o animismo, politeísmo, o xamanismo, eles adoram várias deidades Tupã ( deus criador), Jaci ( deusa da lua), e Guaraci filho de Tupã ( deus que protege as criaturas durante o dia).  
[7] A Companhia de Jesus (em latim: Societas Iesu, S. J.), cujos membros são conhecidos como jesuítas é uma ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados pelo basco Íñigo López de Loyola, conhecido posteriormente como Inácio de Loyola. A Congregação foi reconhecida por bula papal em 1540.[1] É hoje conhecida principalmente por seu trabalho missionário e educacional.[nota 1] [nota 2] . Em 2013, contava com aproximadamente 18 mil integrantes. (Companhia de Jesus, 2017.).

[8] A antropofagia era praticada contra os inimigos, e de guerreiros da tribo, pois se acreditava, que ao comer a carne deste guerreiro, eles absolviam a força e a coragem dele, havia muito boato e mentira sobre esta cultura indígena , espalhada pelos colonizadores, que diziam , que os índios era caçadores de carne humana ( padres), esta mentira foi usada como pretexto para eliminar os índios.

[10] Esta passagem de Marcos 16, 9-20  da grande comissão , não está nos textos originais de Marcos é um acréscimo.
[11] Pecado original é uma ideia criada por Paulo e  endossada pelo padre Agostinho de Hipona século IV e V D.C , aonde se diz, que todos homens estão condenados por causa do pecado de um só homem ( Adão), e por isto devem serem salvos por meio da graça de Cristo. É uma doutrina exclusivamente cristã. 

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